MIDIAS ALTERNATIVAS: TRADICIONAL TV SAI DE CENA, INTERNET ASSUME O PALCO
O último debate presidencial, que seria realizado pela TV Globo na noite dessa quinta-feira (1º/10), a poucos dias do primeiro turno das eleições, foi cancelado pela emissora após uma sequência de decisões judiciais e a desistência dos dois principais nomes inicialmente esperados para o confronto, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Segundo a Globo, duas decisões judiciais alteraram regras previamente acordadas com os partidos. Uma delas, do TSE, impediu a emissora de manter no cenário o púlpito vazio destinado a Lula e de fazer perguntas direcionadas ao candidato ausente. Outra decisão, do ministro Gilmar Mendes, do STF, determinou a inclusão de Renan Santos (Missão) no debate.
A sequência provocou a desistência de Flávio Bolsonaro. O candidato afirmou que não participaria do programa em razão do que classificou como censura imposta pela Justiça Eleitoral. A Globo, por sua vez, afirmou que as mudanças de última hora provocaram “insegurança jurídica” e inviabilizaram a realização do encontro.
No lugar do debate, podcast e lives
Enquanto o estúdio da Globo permanecia vazio, a disputa política migrou para a internet. Lula participou de uma entrevista ao Flow Podcast, transmitida pelo YouTube, praticamente no mesmo horário em que aconteceria o debate. Flávio Bolsonaro também realizou uma transmissão ao vivo nas redes sociais.ASSISTA AQUI
Segundo levantamento divulgado pelo UOL, a transmissão de Lula no Flow chegou a 1,7 milhão de espectadores simultâneos, enquanto a live de Flávio alcançou cerca de 900 mil. Os números representam pico de audiência simultânea, e não o total de visualizações posteriores. O episódio revela uma transformação que vai além do cancelamento de um programa de televisão: a disputa pela atenção do eleitor já não acontece exclusivamente nos grandes veículos tradicionais.
A força da mídia alternativa
Dados do Digital News Report 2026, do Reuters Institute, mostram que as redes sociais já superam a televisão como fonte semanal de notícias no Brasil. Mais da metade dos brasileiros utiliza redes sociais para se informar, enquanto 33% dizem receber conteúdo de notícias de criadores ou influenciadores. O levantamento também aponta crescimento dos veículos digitais e perda de espaço relativo dos meios tradicionais. Pesquisa Datafolha divulgada em março também mostra a dimensão dessa mudança: 54% dos entrevistados disseram utilizar redes sociais para se informar sobre política e eleições, contra 58% que citaram programas jornalísticos de televisão. Sites de notícias foram mencionados por 26%, enquanto YouTube apareceu com 21% e podcasts com 14%.
Esse ambiente fortalece o que pesquisadores identificam como mídia alternativa ou independente, formada por iniciativas que atuam fora dos grandes conglomerados tradicionais e utilizam principalmente plataformas digitais para produzir e distribuir informação. Estudo publicado pela USP destaca justamente a expansão dessas novas configurações de mídia no ambiente digital.
O que o episódio deixa evidente?
O cancelamento do debate da Globo não significa o desaparecimento da televisão da cobertura eleitoral. Mas mostra que o debate político pode continuar mesmo quando o grande palco tradicional é interrompido.
Podcasts, YouTube, Instagram, sites independentes e transmissões próprias passaram a disputar diretamente a audiência que antes dependia, em grande parte, das emissoras de televisão. Na noite em que a Globo cancelou o debate, a política não saiu do ar. Ela mudou de endereço.
E esse talvez seja um dos principais sinais das eleições de 2026: a televisão ainda tem alcance, mas já não possui o monopólio da arena política.
