quinta-feira, julho 2, 2026

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Editorial | 169 anos de Ubá: uma cidade feita por pessoas

 

Nesta sexta-feira, 3 de julho, Ubá completa 169 anos de emancipação política.

São 169 anos de uma história construída muito mais por pessoas do que por prédios, ruas ou administrações. Uma cidade não se faz apenas com obras. Faz-se com quem acorda cedo, abre as portas do comércio, trabalha na indústria, ensina nas escolas, cuida da saúde, planta, produz, empreende e sonha com dias melhores.

Este aniversário, porém, tem um significado diferente.

Nos últimos meses, Ubá esteve nas manchetes dos principais telejornais, jornais, portais de notícias e redes sociais do país. O transbordamento do Ribeirão Ubá levou tristeza, prejuízos e marcas que permanecerão por muito tempo na memória de centenas de famílias.

A força das águas levou bens materiais.

Levou histórias.

E, infelizmente, levou vidas.

Mas, em meio ao sofrimento, outra força surgiu.

A força das pessoas!

Vizinhos acolheram vizinhos.

Desconhecidos se tornaram voluntários.

Empresários abriram as portas para ajudar.

Igrejas organizaram campanhas.

Servidores públicos trabalharam além do horário.

Profissionais da saúde, da assistência social, da limpeza urbana, da segurança e tantas outras áreas enfrentaram dias exaustivos para atender quem mais precisava. Foram milhares de gestos que talvez nunca apareçam em fotografias ou vídeos, mas que fizeram toda a diferença para quem precisava recomeçar.

Também vimos a solidariedade chegar de cidades vizinhas, da região, do Brasil, de instituições, de empresas e de pessoas que, mesmo sem conhecer as vítimas, estenderam a mão.

Essa é a Ubá que merece ser lembrada.

Naturalmente, uma tragédia também traz questionamentos. Ela revela problemas antigos.

Mostra falhas. Expõe erros.

Provoca críticas, muitas delas necessárias.

Mas também evidencia algo preocupante dos tempos atuais: a velocidade com que opiniões são formadas antes mesmo dos fatos serem conhecidos.

Vivemos a era em que uma publicação pode valer mais do que uma apuração, em que o compartilhamento acontece antes da confirmação e em que o desejo por visibilidade, muitas vezes, supera o compromisso com a verdade.

É um desafio para toda a sociedade.

O Ribeirão Ubá foi impiedoso. Machucou nossa cidade. Mas também nos faz refletir sobre o quanto, durante décadas, nós mesmos machucamos o ribeirão. Quantas vezes o tratamos apenas como um curso d’água esquecido.

Quantas vezes convivemos com o descarte irregular de lixo, com a ocupação desordenada de suas margens e com pequenos descuidos que, somados ao longo do tempo, produziram grandes consequências.

Uma cidade não se transforma apenas cobrando. Transforma-se participando. Transforma-se cuidando. Transforma-se respeitando os espaços públicos, preservando o meio ambiente e compreendendo que o patrimônio coletivo pertence a todos.

Os governantes passam.

As administrações mudam.

Mas Ubá permanece!

Ela continua sendo a casa de milhares de pessoas que desejam viver em uma cidade mais segura, mais organizada, mais humana e mais preparada para enfrentar seus desafios.

Ao completar 169 anos, Ubá merece celebrar sua história sem ignorar suas dificuldades.

Merece reconhecer quem trabalhou em silêncio. Quem ajudou sem esperar aplausos. Quem estendeu a mão sem perguntar a quem.

Porque são essas pessoas que sustentam uma cidade nos momentos mais difíceis.

Há um antigo provérbio chinês que diz: “É melhor acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão.”

Talvez essa frase resuma o que vimos nos últimos meses.

Enquanto muitos apontavam problemas, milhares de ubaenses escolheram fazer alguma coisa para resolvê-los.

Há cidades que são lembradas por seus monumentos. Ubá será lembrada, acima de tudo, por seu povo. Porque são as pessoas — e não as tragédias — que escrevem a verdadeira história de uma cidade.

Parabéns, Ubá, pelos seus 169 anos.

Que a memória da tragédia fortaleça nossa capacidade de cuidar uns dos outros.